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Saber Envelhecer

A nossa população, actualmente, está cada vez mais envelhecida. Com a evolução da medicina, das condições de vida, em termos da higiene e da alimentação (ou talvez não) e de outras condicionantes da evolução dos tempos, é um facto que a média de esperança de vida aumentou.

Pensemos nas implicações que este “envelhecimento da população” tem na sociedade.

Obviamente, existem mudanças a nível social muito importantes decorrentes deste envelhecimento, que trouxeram novas necessidades às dinâmicas social e familiar. Em ambos os casos têm-se tentado criar determinadas condições que permitam oferecer uma resposta eficaz. Abrem cada vez mais Lares, Centros de Dia, Centros de Convívio e começam a surgir, embora infelizmente ainda em número insuficiente, serviços de apoio domiciliário, o que traduz uma crescente preocupação com a 3ª idade.

Actualmente, quando se fala de envelhecimento, de idosos, de 3ª idade já se começa a ter uma perspectiva mais positiva e mais optimista, a qual está bem patente até nas dinâmicas realizadas em muitos dos Centros de Convívio, nomeadamente, passeios, colónias de férias, aprendizagem de novas tecnologias, intercâmbios intergeracionais e formações. Mas ainda existem muitas crenças e mitos relativos ao envelhecimento que precisam de ser desmistificados, medos e dúvidas que devem ser esclarecidas e, muitas mentalidades que precisam de mudar...

Torna-se urgente desenvolver imagens mais positivas relativamente a este período de vida, de forma a podermos melhorar a qualidade de vida dos idosos, proporcionando-lhes um maior bem-estar psicológico.

E porque não começar pelos próprios idosos? Se aprenderem a encarar o envelhecimento com um sorriso nos lábios, poderão eles próprios ser catalizadores da mudança de opinião e da visão que a sociedade tem desta faixa etária.

É importante, então, “sabermos envelhecer”, mas como? Vamos ver. 

O Envelhecimento é um processo universal, inerente a todos os seres vivos, que podemos dividir em três componentes: o envelhecimento biológico, resultante da crescente vulnerabilidade a doenças e a situações de crise; o envelhecimento social, em relação aos papéis sociais adaptados às expectativas da sociedade e, o envelhecimento psicológico, definido pela auto-regulação do indivíduo a nível da tomada de decisões e opiniões.

Chegado a esta etapa da vida, o idoso constata que não foi só o corpo que mudou, com o aparecimento de mais rugas e cabelos brancos. Encontra também alterações no meio que o rodeia, quer a nível mais restrito onde se verificam mudanças a nível familiar; a perda de amigos, cônjuges e/ou outros familiares; doenças; menor energia para manter activos vínculos estabelecidos com outras pessoas; quer a nível mais global onde é confrontado com alterações na sociedade em geral: novas tecnologias, novas descobertas, novos hábitos e novos costumes. Resumindo, são muitas as mudanças que surgem na sua vida, exigindo uma adaptação eficaz e é, principalmente, neste processo de adaptação às novas exigências, necessidades e limitações que reside a sabedoria do “bom envelhecimento”.

Em primeiro lugar, é essencial que se encare o envelhecimento como mais uma fase do percurso de desenvolvimento do Homem, tal como a adolescência, pois trata-se de um processo normal e não de um sinal de doença.

Em segundo lugar, nunca é demais lembrar que as alterações causadas pelo envelhecimento desenvolvem-se a um ritmo diferente para cada pessoa e dependem tanto de factores internos, nomeadamente as características genéticas, o estado de saúde ou o modo de reagir às contrariedades, como de factores externos tais como o estilo de vida, as actividades e o ambiente.

Desta forma, a atitude que permitirá ao idoso manter o seu bem-estar passa por tentar adaptar o seu estilo de vida às diferentes situações da velhice que vão surgindo, procurando integrar os seus problemas físicos e as suas limitações, caso existam, na nova imagem de si próprio e modificar o seu estilo de vida em conformidade, tentando sempre conservar uma atitude positiva quanto ao seu potencial de saúde.

Saber Envelhecer, passa também pela manutenção de uma auto-estima positiva.

Como pode um idoso manter a sua auto-estima?

A auto-estima de qualquer pessoa tende a ressentir-se com mudanças e perdas mais ou menos frequentes e/ou inevitáveis. No caso do idoso sabemos que a fase de vida em que se encontra leva a que ocorram umas e outras. Deste modo, para se proteger de prováveis alterações na sua auto-estima, que poderiam conduzir a alterações psicológicas, apresento algumas recomendações, que dizem respeito ao controlo sobre a própria vida e sobre as decisões tomadas; uma vida mais activa e saudável e a participação social em grupos de qualquer índole, sempre de acordo com os interesses de cada um.

Um aspecto essencial para o desenvolvimento de uma auto-estima positiva é reconhecer que temos qualidades e defeitos e que a valorização dessas nossas qualidades pode dar-nos força e competência para saber enfrentar as dificuldades e ultrapassar os tais defeitos.

Outro aspecto importante é não se deixar abater pelos factores externos (ex.: perdas, conflitos relacionais, etc.). Muitas das vezes, ao longo da sua vida, o idoso teve ou ainda tem que enfrentar situações difíceis, o segredo para manter a satisfação pela vida e continuar a sorrir é a capacidade de adaptação a todas essas situações adversas. Esta adaptação pode fazer-se da seguinte forma: mantendo o sentido de humor, a capacidade de rir, de sorrir; procurando sempre os aspectos positivos da situação; não exigindo demasiado de si próprio e dos outros (tendo expectativas realistas); mas, ao mesmo tempo, nunca perdendo a capacidade de sonhar. Mas existem muito mais coisas que o idoso do séc. XXI pode fazer para se sentir bem consigo próprio, como por exemplo:

- procurar conhecer-se e valorizar as suas vivências, aprendendo com a dor e a alegria, aprendendo com os erros;

- estar em contacto com diferentes pessoas, trocar experiências, ideias e opiniões, partilhar o seu conhecimento, a sua experiência de vida;

- interessar-se por diversos assuntos;

- acompanhar a evolução dos tempos, as ideias, as novas tecnologias;

- participar em diferentes eventos (ex.: ir ao cinema, ao teatro, a festas e passeios)

- descobrir as potencialidades dos seus novos papéis (ex.: ser reformado; ser avô) ou simplesmente ter uma participação activa na sua vida.

Resumindo, é importante lembrarmo-nos que as pessoas idosas são únicas, vivem modos de vida diversificados e os seus interesses, capacidades, necessidades e expectativas são diferentes. Viveram muitas experiências de vida, mas também muitas emoções e sentimentos. Pensemos no idoso, não como antigo ou ultrapassado, mas como alguém que adquiriu uma maturidade emocional que lhe é própria.

Quando envelhece o ser humano pode e deve tirar partido das suas experiências passadas, conhecimentos adquiridos e capacidades para enriquecer a experiência e manter certas actividades. Mesmo quando se torna mais demorado o funcionamento psicológico, é possível manter e mesmo intensificar o seu valor. O que conta não é o que se perde, mas aquilo com que se fica.

Encaremos o envelhecimento com naturalidade, pois embora acarrete alterações de ordem fisiológica, biológica, psicológica e social, é também um processo contínuo de crescimento intelectual, emocional e psicológico. Mostremos que sabemos envelhecer!

Sónia Gaudêncio de Oliveira

sonia.oliveira@nupe.pt

Coordenadora do Centro de Convívio da ADCS

Psicóloga Clínica

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